terça-feira, 19 de abril de 2011

Adultos antes da hora



Fenômeno da adolescência precoce ganha força, mas pode prejudicar desenvolvimento da juventude cristã.
Por Laelie Machado
Curioso este país: ao mesmo tempo em que resiste quando se trata de confiar responsabilidades aos jovens, também estimula a maturidade prematura para encher de lenha a fogueira do consumo. E bem no centro dessa contradição, os adolescentes enfrentam o conflito entre ser tratados como “crianças grandes” ou “pequenos adultos”, de acordo com as conveniências — tanto as próprias quanto as da sociedade. As igrejas evangélicas também encontram alguma dificuldade para lidar com um contingente que abandona a infância cada vez mais cedo.
O conceito de adolescência, em si, não é dos mais precisos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), essa fase começa aos 10 anos de idade e vai até os 19. Já para o Estatuto da Criança e do Adolescente, ela acontece dos 12 aos 18 anos, sendo esse o padrão assumido pela maioria das igrejas evangélicas ao dividir as turmas da escola bíblica dominical e definir quem faz parte do ministério de adolescentes e que já deve ser promovido aos departamentos de mocidade.
Para a publicidade, porém, a lógica é diferente: quanto antes se forma um consumidor, mais cedo se contabiliza o lucro. E, caso se possa contar com a cumplicidade dos pais, tanto melhor. “A mídia incentiva a precocidade porque tem interesse na venda de produtos”, diz Wanderley Rangel Filho, fundador e diretor da organização Preparando o Adolescente para a Vida (Pavi), que existe desde 1989. “Já os pais estão confundindo precocidade com maturidade.” Sediado no interior de São Paulo, o Pavi tem por objetivo treinar pais, professores e líderes, além de promover eventos para os próprios adolescentes.
Ainda na opinião de Wanderley, os adultos são os principais responsáveis pela ideia de adolescência precoce, o que acaba sendo aceito pelos teens. “Os adolescentes gostam de ser tratados como precoces porque querem ser adultos. Para eles, o ideal é que os pais e os adultos em geral os tratem como gente grande. Assim eles poderão fazer coisas de gente grande”, afirma.
A psicóloga Daniela Pedroso Negrão define a adolescência como um momento de mudanças fisiológicas, que incluem principalmente o sistema endócrino e reprodutor. Mas, para o leigo que tem um desses seres humanos em formação dentro de casa, o que pode ser visto a olho nu é o crescimento rápido e o desenvolvimento das características masculinas e femininas mais acentuadas. “Se pensarmos em adolescência de uma forma global, entenderemos que é impossível vivê-la antes do tempo. O que pode ocorrer antes disso são interesses precoces de forma geral, mas alguns adolescentes têm a sexualidade um pouco mais aflorada”, explica.
Hoje em dia, na visão da pedagoga Ivaldinete Neves Pereira Resende, coordenadora estadual da organização batista Mensageiras do Rei, as crianças são tratadas como pequenos adultos antes da hora, e essa precipitação pode cobrar um preço alto. Para evitar que essa tendência afete o comportamento das meninas dentro da igreja, a organização, que visa estimular a integração e o estudo da Bíblia entre adolescentes e pré-adolescentes cristãs, procura reafirmar a importância do respeito às fases de desenvolvimento da criança. “Conscientizamos as meninas juniores a aproveitar o máximo de sua infância, dinamizando as atividades atrativas para essa fase. Não é difícil, porque elas querem mais é brincar, e nós procuramos conscientizá-las de que há tempo para tudo.”

Diferença de gerações – O ministério de teens da Igreja Bola de Neve, em São Paulo, segue esse princípio. Segundo a diaconisa Francis Antunes, para que o adolescente chegue nessa faixa etária com uma boa saúde espiritual e consciente das obrigações na igreja, o trabalho precisa começar no ministério infantil. “Nós mostramos o papel da criança na sociedade de acordo com os padrões bíblicos para que, ao chegar à adolescência, ela já tenha consciência das suas atitudes”, explica. Os garotos que ingressam no ministério dos adolescentes coordenam seus próprios trabalhos na igreja e cuidam de toda a parte de culto, louvor e pregações, tudo sob a orientação de monitores. Segundo Francis, na Bola de Neve – denominação cuja membresia é predominantemente jovem –, a consciência de que os padrões de adolescência precoce proposto pelo mundo não são os ideais vem com a mudança de vida. “Eles não vivem da forma que os outros dizem ser certo ou errado, mas de acordo com Jesus Cristo e a Palavra de Deus”, sintetiza a obreira.
Contudo, fortalecer um ministério voltado para esse grupo em uma igreja de perfil mais conservador nem sempre é fácil. O pastor Luciano Alves Silva, diretor da União das Mocidades das Assembléias de Deus de Guarulhos, em São Paulo (Umadguar), comenta como é complicado orientar um adolescente na igreja, tarefa que se torna ainda mais difícil quando a educação no lar evidencia o abismo entre a maneira de pensar dos pais e dos filhos. “Essa diferença de gerações causa problemas”, diz. O líder de adolescentes da Primeira Igreja Batista de Atibaia (SP), David John Merkh Jr, também se mostra preocupado quando o assunto é a forma como as crianças e os pré-adolescentes se desenvolvem e vivenciam experiências que antes faziam parte de uma fase posterior da vida. “Eu creio que essa tendência é extremamente perigosa, pois demonstra claramente o sintoma de uma doença muito mais profunda — a de que crianças e adolescentes são cada vez mais afetados pela sociedade e pelo mundo do que pelos pais e pela igreja”, diz.
Merkh ressalta que, dia após dia, os adolescentes estão buscando maior independência, o que vem acompanhado de arrogância e malícia. Para ele, os pais devem assumir a importância que têm nesse processo.“Eles é que devem exercer a maior influência sobre os filhos e não permitir que a inocência seja roubada pela sociedade. Creio que os pais permissivos e ausentes são os maiores responsáveis pela adolescência precoce e pelos problemas que esse processo acarreta”, diz.

Em dinâmica, teens revelam opiniões e ansiedades
Conhecer e entender o fenômeno da adolescência precoce, suas causas e os fatores que o provocam é essencial na hora de educar os jovens de acordo com os parâmetros bíblicos. Entretanto, o que eles mesmos pensam sobre o assunto? Numa dinâmica de grupo realizada com a turma de adolescentes da Primeira Igreja Batista de Guarulhos, a reportagem de CRISTIANISMO HOJE buscou entender o que eles acham desse fenômeno.

“Eu acho que a escola é responsável por essa idéia. 
Minha mãe também é responsável por isso, mas eu gosto de ser tratada como adulta.”
Beatriz Layra de Carvalho Custódio, 14 anos

“Os pais têm medo do que os filhos podem fazer. Não sabem se devem tratá-los como adolescente antes da hora ou se tratam como criança por um longo tempo.”
Andrei Teixeira Martins, 15 anos

“Eu me senti adolescente quando vivi uma maior independência. Comecei a andar sozinho aos 13 anos, já pegava ônibus para ir ao cursinho.”
Guilherme Vallin, 14 anos

 “Na minha escola, as crianças no sétimo e do oitavo ano já estão se preparando para o vestibular. Eles acabam vivendo mais cedo aquilo que não faz parte da sua idade.”
Giuliano Caio Virgínio da Silva, 14 anos

“Essa ideia vem da influência das amizades. Não é nem tanto culpa da escola, e sim do adolescente. Ele pensa: ‘Se fulano pode, por que não posso? Se uma pessoa da minha idade faz, eu também posso fazer.’ Não é a idade que classifica, é a maturidade.”
Vinicius Canola Martins, 18 anos

“Passei para a adolescência quando ganhei meu primeiro celular e perdi a vontade de brincar de carrinho. Mas eu queria um Playstation, e não um celular...”
Leonardo Silva Gama, 13 anos

“Eu me senti adolescente quando minha mãe parou de me dar brinquedos, aos 11 anos!”
Lucas Dahora, 12 anos

“Meu pai e minha mãe não gostam da ideia de adolescência precoce. Para namorar e sair, eles dizem que sou criança.”
Bruna Araújo de Freitas, 13 anos

A história de um conceito
Em termos históricos, é possível dizer que o conceito de adolescência é relativamente recente. Na sociedade medieval, por exemplo, a criança era praticamente ignorada. Durante a Idade Média, não existia um “sentimento da infância”, e quando a criança não precisava mais do apoio da mãe ou ama, já ingressava no mundo dos adultos. Essa mudança ocorria na faixa dos sete ou oito anos, sem nenhuma transição; elas eram consideradas adultos em pequeno tamanho, pois faziam as mesmas coisas que as pessoas mais velhas. Isso explica-se, em parte, pela reduzida – para os padrões modernos – expectativa de vida da época, que em muitos países não passava dos 40 anos. Assim, a infância nada mais era do que uma passagem para a vida adulta, e a morte das crianças era encarada com naturalidade.
Quando os adultos passaram a se permitir algum sentimento pelas crianças, a primeira manifestação foi a de paparicá-las. Desapareceu a vergonha de mostrar o prazer provocado pelo jeito de ser da garotada. Isso nasceu no seio familiar, mas depois se espalhou para a sociedade. O termo “adolescência”, porém, surgiu há pouco mais de um século, exatamente para designar essa fase de transição. “Adolescência é a fase da vida entre a infância, pois não se é mais criança, e a idade jovem, ainda não adulta. Portanto, não existe adolescente precoce”, afirma Wanderley Rangel Filho, diretor da associação Preparando o Adolescente para a Vida (Pavi).


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